Consequências do AVC

Consequências do AVC

As consequências do AVC podem originar cinco tipos principais de défices: paralisia e alterações da motricidade, alterações sensoriais, alterações da comunicação, alterações cognitivas e distúrbios emocionais.

  • Paralisia e alterações da motricidade – a primeiras das consequências do AVC

A paralisia é uma das disfunções mais comuns. Ocorre no lado contra-lateral à região do cérebro afectada, envolvendo parte ou mesmo toda a metade do corpo e podendo ser total (hemiplegia) ou parcial (hemiparesia). Podemos ter também problemas de equilíbrio e/ou coordenação (ataxia) quando o cerebelo é afectado.

Logo após um AVC, o hemicorpo afectado apresenta hipotonia, isto é, o tónus é muito baixo para iniciar qualquer movimento, não apresenta resistência ao movimento passivo e o indivíduo não consegue manter o membro em nenhuma posição, principalmente durante as primeiras semanas. É frequente nestes casos, com o passar do tempo, a substituição de um quadro de hipotonia por hipertonia, em que há um aumento da resistência ao movimento passivo. A espasticidade tende a aumentar gradualmente nos primeiros 18 meses com os esforços e actividades desenvolvidas pelo indivíduo. (Pode levar a complicações secundárias como contratura dos músculos e articulações, dor e distúrbios funcionais, com posturas anormais e movimentos estereotipados. Exercícios passivos são fundamentais  para prevenir esta condição. Pode-se ainda recorrer a drogas antiespásticas, toxina botulínica ou mesmo cirurgia.

 

  • Alterações sensoriais – a segunda das consequências do AVC

Pode existir diminuição ou abolição da sensibilidade superficial (táctil, térmica e dolorosa), o que contribui para o risco de auto-lesões e, por outro lado, outros doentes podem experienciar parestesias, sensações cutâneas subjectivas na ausência de estímulo (frio, calor, formigueiro, pressão).

São bastante frequentes distúrbios do campo visual sendo o mais comum a hemianopsia.

Os doentes frequentemente apresentam uma variedade de síndromes de dor crónica resultantes da lesão do sistema nervoso (dor neuropática). É comum experienciar dor moderada a intensa com irradiação para o ombro em membros paralisados – ombro doloroso. O ombro doloroso contribui para recuperação diminuída do membro superior, depressão, privação de sono e pode estar associado a um pior prognóstico.  Até 72% dos doentes irão experienciar pelo menos 1 episódio de dor durante o primeiro ano após o AVC. A mobilização passiva do membro parético pode ter um carácter preventivo. Entre as opções de tratamento temos a estimulação eléctrica funcional, sessões de relaxamento, talas e os suportes.

Outra manifestação pode resultar da lesão das vias sensoriais no cérebro, provocando a transmissão de falsos estímulos que cursam com a experiência de dor no lado afectado (central post stroke pain). É uma síndrome dolorosa que afecta 2 a 6% dos doentes e no seu tratamento utilizam-se antidepressivos tricíclicos, nomeadamente a amitriptilina, e a estimulação eléctrica funcional.

A incontinência urinária é comum após o AVC, particularmente nos doentes mais idosos, mais incapacitados e com maior deterioração cognitiva. Aproximadamente metade apresenta incontinência aquando da admissão e 20% mantém após os 6 meses.

Resulta muitas vezes da combinação de défices motores e sensoriais ou até devido à falta de mobilidade e é um forte preditivo de mau prognóstico funcional.  Por sua vez, a incontinência fecal geralmente resolve-se em 2 semanas na maioria dos doentes. Obstipação e impactação fecal são mais comuns que a incontinência, com vários factores predisponentes como a imobilidade e inactividade, ingestão inadequada de comida e líquidos, depressão ou ansiedade, défices cognitivos e lesão neurológica.

 

  • Alterações da comunicação – a terceira das consequências do AVC

Segundo Pedersen et al, a proporção de doentes a demonstrar afasia na avaliação inicial é de 38% e 19% continuam a manifestar alterações aos 6 meses.

A afasia está geralmente associada à lesão do hemisfério dominante. A lesão da Área de Broca provoca afasia expressiva, com dificuldade em formar frases gramaticalmente correctas e coerentes. Por outro lado, a lesão da Área de Wernicke cursa com afasia receptiva, dificuldade na compreensão e discurso incoerente. Apesar de elaborarem frases gramaticalmente correctas, estas são destituídas de significado.  Quando todos os parâmetros são afectados temos afasia global. Uma forma de afasia menos grave é a afasia anómica/amnésica, relativamente subtil, onde o doente esquece grupos de palavras inter- relacionados, como nomes de pessoas ou objectos.

Défices de comunicação mais subtis, afectando a interacção, comunicação não-verbal ou informação inferida, podem ser observados após lesão do hemisfério não-dominante.

O doente pode ainda ter disartria, que consiste na perturbação motora dos órgãos da fonação, com uma incidência de 20 a 30%.

 

  • Alterações da cognição – a  quarta das consequências do AVC

As alterações cognitivas podem ser gerais (processamento mais lento da informação), ou pode ocorrer num domínio específico (orientação, atenção, memória, visão espacial e construtiva, flexibilidade mental, planeamento e organização, linguagem). Alguns doentes podem ter dificuldades de raciocínio e perder a capacidade de fazer planos, compreender significados, fazer novas aprendizagens, ou enveredar por outras actividades mentais complexas.

A memória pode ser afectada de diversas formas. Os doentes podem ter dificuldade em aprender novos conceitos ou habilidades e em lembrar ou recuperar essa informação. A memória prospectiva também pode estar prejudicada.

A apraxia e a agnosia são outros dos distúrbios frequentes. A primeira consiste na incapacidade de programar uma sequência de movimentos, apesar das funções motora e sensorial estarem aparentemente preservadas. Os doentes podem realizar acções automaticamente, mas não de forma voluntária.  A agnosia consiste na incapacidade de reconhecer objectos familiares e de lhes dar uma função, ainda que os órgãos sensoriais não estejam lesados. A anosognosia consiste na incapacidade de reconhecer as limitações físicas resultantes do AVC.

Poderão igualmente surgir alterações a nível da imagem e esquema corporal, onde se incluem o neglect unilateral (incapacidade de responder a objectos ou estímulos sensoriais de uma metade corporal, geralmente o lado afectado).

Alterações da função executiva também se podem verificar, particularmente quando os lobos frontais são afectados. As funções executivas têm um papel organizador na iniciação  e inibição do comportamento. A capacidade de planear, resolver problemas e auto-avaliação também podem estar prejudicadas, com repercussões no comportamento social.

A recuperação ocorre, mas défices residuais podem permanecer por longo período de tempo e estão associados a um progresso mais lento na reabilitação.

 

  • Distúrbios emocionais – a  quinta das consequências do AVC

Muitos dos doentes sentem medo, ansiedade, frustração, raiva, tristeza e uma enorme mágoa pelas suas perdas físicas e psicológicas, sentimentos esses que representam até certo nível uma resposta normal ao trauma psicológico do evento. Por outro lado, a própria lesão de estruturas cerebrais também pode contribuir e ser responsável por algumas das alterações emocionais e de personalidade.

A depressão representa o distúrbio emocional mais comummente vivenciado tendo sido descrita em até 1/3 dos doentes de AVC . Surge como um sentimento de desesperança que provoca a ruptura do indivíduo para funcionar. Distúrbios do sono, alterações na alimentação com excessivo e súbito aumento ou perda de peso, letargia, falta de motivação, isolamento social, cansaço, auto-aversão e ideias suicidas são alguns dos sinais que podem indiciar depressão.

A depressão está associada a défices cognitivos mais graves, torna mais difícil a reabilitação e aumenta o risco de morbilidade e mortalidade.

A ansiedade pode ser provocada por situações, como medo de cair durante a transferência ou de conviver com pessoas, ou pode ser um transtorno generalizado e não relacionado com um factor desencadeante específico. Pode ainda estar associada ao stress pós-traumático. O impacto na função varia de acordo com a gravidade.

Emocionalíssimo ou habilidade emocional representa uma falta de controlo sobre as emoções, resultando em grande tendência para rir ou chorar. Estes sintomas tendem a melhorar com o tempo.

 

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